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T Ó P I C O : CAFÉ: identidade feminina vira ativo global a partir de Dona Henriqueta

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CAFÉ: identidade feminina vira ativo global a partir de Dona Henriqueta


Autor: Leonardo Assad Aoun

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Último comentário neste tópico em: 28/04/2026 17:13:56


Leonardo Assad Aoun comentou em: 28/04/2026 16:19

 

Dona Henriqueta: a Centenária Que Se Tornou Símbolo do Maior Grupo Cooperativo de Mulheres do Café no Mundo

 

E o que elas querem é negócio. Conheça o Cafeína Cocatrel, que reúne 850 cafeicultoras, movimentou R$ 111 milhões em quatro anos e constrói o primeiro protocolo global de sustentabilidade exclusivo delas para o grão

Cocatrel
Henriqueta Miranda Carvalho Silva, 103 anos, embaixadora do Grupo Cafeína

“O verbo é muito importante, e a geografia também”. A frase é de Henriqueta Miranda Carvalho Silva, 103 anos, dona da Fazenda Prazeres, em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais. Ela a carrega como uma espécie de bússola porque aprendeu cedo que as palavras e o lugar onde se nasce moldam quem se é.

Nascida em família de cafeicultores, Henriqueta cresceu numa fazenda que era também de gado de leite. O pai teve sete filhos do primeiro casamento e mais cinco do segundo. Em uma entrevista exclusiva à Forbes, sobre sua infância ela tem uma memória vívida e inesperada: uma manhã em que foi mordida por um cachorro da fazenda e o cuidado do pai que correu para socorrê-la. Mas o que domina a memória é sempre o cuidado com o café. Conhece cada detalhe do processo: o maquinário, o manejo, a renovação das lavouras, a seleção dos grãos, os segredos do terreiro; a vida inteira foi isso.

Havia escola na Vila Prazeres e foi nela que Henriqueta começou a estudar, aos 9 anos. A educação ficou para sempre. Ela foi professora e também a primeira mulher a comprar um Fusca em Três Pontas. Aprendeu a dirigir aos 40 anos. “Mas não gostei”, diz. O fato é que Henriqueta traçou caminhos pouco convencionais para uma mulher de sua geração. Falou e fez por si, investiu, expandiu, chegou a colher 10 mil sacas de café. Meio século atrás, Henriqueta já poderia ter sido classificada como geração NOLT (New Older Living Trend), termo moderno para pessoas que rejeitam estereótipos como “terceira idade”.

Cocatrel
Dona Henriqueta já era uma NOLT (New Older Living Trend) há meio século

Hoje, dona “Dona Henriqueta”, como é chamada entre os seus, é o símbolo de um movimento de mulheres no sul de Minas que nasceu em 2019 na Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas (Cocatrel), quando foi criado o grupo Cafeína. Ela é sua embaixadora desde o início.

Não por acaso, a geografia e o verbo defendidos por ela veio em forma de reconhecimento. No ano passado, o grupo Cafeína recebeu um vídeo inusitado: um agradecimento de consumidores de um centro empresarial de Londres, na Inglaterra, ao saberem que o café consumido por eles vinha de um grupo de mulheres a 9.200 km em linha reta, um lugar a cerca de 13 horas de vôo.

O Cafeína Cocatrel é o maior grupo de mulheres cafeicultoras vinculado a uma cooperativa no mundo. Atualmente são 2.179 cooperadas titulares de terras, um crescimento de 12,6% em relação ao mesmo período de 2025. Essas mulheres representam 23,4% dos 9.300 membros totais da Cocatrel. Entre elas, cerca de 850 participam ativamente do grupo, distribuídas em mais de 80 cidades, com concentração em Minas Gerais.

“São mulheres que estão diretamente e à frente dos negócios”, diz a nutricionista Iandra Vilela, uma especialista em cafeicultura, especialmente em processos de pós-colheita e qualidade, e que é coordenadora do grupo Cafeína Cocatrel.

“Por isso, a Dona Henriqueta não é uma homenagem ao passado. Ela é a prova de que esse movimento sempre existiu. O que faltava era só ter nome e estrutura.”

Iandra conta que o movimento nasceu de uma pesquisa realizada em 2017 pela Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA), Ministério da Agricultura e Embrapa, que identificou o potencial das mulheres na cafeicultura do Sul de Minas. Em 2018, a Cocatrel premiou Dona Henriqueta como Cafeicultora Inspiração do Ano.

A formalização do grupo que ocorreu no ano seguinte veio junto com a marca “Mulheres que Produzem” registrada no INPI e com vigência até abril de 2030. “Por gerações, a mulher estava no terreiro, na panha, na secagem. Estava em tudo, menos no contrato. O grupo veio mudar isso”, afirma Iandra. De lá para cá, o Cafeína realizou mais de 500 encontros, reuniões, cursos e treinamentos, e criou cinco núcleos regionais.

R$ 111,4 milhões em quatro anos e um salto de 75% em 2025

Os números do Cafeína mostram uma trajetória de aceleração. Entre 2022 e 2025, o volume financeiro total das cooperadas do grupo chegou a R$ 111,4 milhões. O salto mais expressivo ocorreu em 2025: crescimento de 75% em relação ao ano anterior, com o volume anual subindo de cerca de R$ 21 milhões para R$ 37 milhões. O número de sacas entregues também cresceu, alta de 16.607 unidades na comparação entre 2024 e 2025, passando de cerca de 330 mil para 347 mil sacas.

“O Cafeína não nasceu para ensinar a mulher a plantar café. Ela já sabe. Nasceu para que ela soubesse o quanto o café dela vale.” Na mvimentação da loja da cooperativa, onde são vendidos insumos para as propriedades, o desempenho das mulheres do Cafeína registrou recorde em 2025: R$ 6,47 milhões , crescimento de 25,1% em relação ao ano anterior. O acumulado entre 2022 e 2025 é de R$ 22,1 milhões.

Cocatrel
Iandra Vilela, coordenadora do Grupo Cafeína, e Dona Henriqueta

Outro feito foi o registrado para café especial produzido pelo grupo que obteve nota 83,50 pela BSCA (Brasil Specialty Coffee Association) na safra 2025/26. O produto, Café Especial 100% Arábica, blend produzido por mulheres cooperadas, ostenta o Selo BSCA “Qualidade no Blend” e é exportado pelo CDT (Cocatrel Direct Trade) para 25 países. Entre eles estão Alemanha, França, Reino Unido, Estados Unidos, Itália, Espanha, Suíça, Portugal, Jordânia e Rússia. Os parceiros comerciais incluem a britânica Pact Coffee, a Falcon Specialty e a Gentlemen Baristas.

“Quando a mulher entende que o café dela pode ser exportado, que o nome dela pode estar na sacaria que sai para a Europa, a relação dela com a propriedade muda completamente”, afirma Iandra. “Por isso, a certificação não é um papel na parede. É a forma que encontramos de fazer o mercado internacional enxergar o trabalho que essas mulheres já fazem há décadas.”

Da rastreabilidade invisível à marca própria

Luiza Borges Oliveira, uma das produtoras ligadas ao Cafeína, é cofundadora e gestora da Guanabara Café, marca de cafés especiais da Fazenda Santa Luzia, em Carmo do Rio Claro (MG), uma propriedade familiar em que o irmão e o pai também estão na lida. Luiza conta que desde o avô a aposta era produzir um bom café.

“Mas a gente achava que na fazenda não tinha café especial”, lembra Luiza.

O processo de descoberta veio pela pós-colheita: fermentações, secagem vulcão, secagem leira, secagem em camada fina. A fazenda passou a produzir cafés com pontuações acima de 87 pontos. Em novembro de 2025, ficou em segundo lugar na categoria Sul de Minas no concurso da Emater e em primeiro lugar no concurso do Sindicato de Boa Esperança.

“A gente bate muito nessa tecla: é um café direto da nossa fazenda, aqui é o nosso terroir. E a gente descobriu a forma de encontrar altas pontuações .” Neste ano, a estimativa é colher entre 8 mil e 10 mil sacas. . A área de café toma 320 hectares, quase toda em produção, a uma média de 35 a 40 sacas por hectare.

Cocatrel
Luiza Borges Oliveira e a descoberta de que poderia ser uma marca

Luiza está no Grupo Cafeína desde o início, mas o momento decisivo para a visibilidade internacional da marca Guanabara veio neste ano, quando ela se tornou cooperada titular da Cocatrel ao receber os talhões da fazenda que passaram para o seu nome. Antes, todo o café saía em nome do pai, João Luiz, e a rastreabilidade não registrava o nome dela.

“Não tinha como mandar o café da Luiza”, diz o pai, que aposta no trabalho da filha. E ela diz a que veio. “Eu sei o trabalho que tenho, sei o produto que tenho e brigo muito pelo valor do meu café”, afirma Luiza. Para ela, a Cocatrel se diferencia de outros canais pela transparência: “A cooperativa mostra para mim o que aconteceu em cada lote e isso importa para a gente ir cada vez mais longe.”

Da fazenda ao torrefador global: como funciona o CDT

O Cocatrel Direct Trade (CDT) é o departamento especializado da cooperativa para exportação de cafés especiais, atuando como elo direto entre as produtoras e os compradores internacionais. Todo café com doçura e potencial de qualidade é separado na safra, enviado ao CDT e submetido a três avaliações, uma inicial e duas contraprovas, para verificar seu potencial sensorial.

O sistema de classificação do CDT segue faixas de pontuação: COC 2 engloba cafés entre 82 e 82,99 pontos; COC 1 vai até 84,99; e COC CDT contempla os cafés acima de 85 pontos. Esse café é personalizado automaticamente, com rastreabilidade por fazenda, sem necessidade de solicitação do produtor.

Para os cafés entre 82 e 84,99, o produtor tem sete dias para personalizar o lote. Caso contrário, o café entra no blend. Os compradores internacionais podem adquirir single estates, incluindo fazendas de mulheres do Cafeína, ou blends, de acordo com a demanda. As provas são realizadas às cegas para garantir imparcialidade na classificação.

Cocatrel
Lotes de cafés são avaliados em busca das melhores pontuações

O próximo passo na geografia do Grupo Cafeína tem data e endereço: 2027 e a Plataforma Global do Café (GCP), entidade que reúne os maiores players do setor mundial, incluindo trading companies como Louis Dreyfus e Sucafina. A Cocatrel se filiou à GCP em 2026 e constrói, em parceria entre o Grupo Cafeína e o Departamento de Sustentabilidade, o primeiro protocolo de sustentabilidade exclusivo para mulheres cafeicultoras validado pela plataforma.

“É o primeiro de mulheres cafeicultoras, exclusivo. Não estamos abrindo para todos os membros da cooperativa, por ora”, afirma Thamiris Bandoni, coordenadora do Departamento de Sustentabilidade da Cocatrel.

O protocolo endereça uma lacuna específica: os cafés especiais das mulheres do grupo, acima de 83 pontos, já são exportados pelo CDT com rastreabilidade e valorização. Mas o café padrão entra no blend sem ágio. Com a certificação, o departamento responsável pela exportação de commodities da Cocatrel, passará a negociar esses cafés com diferencial junto a grandes compradores internacionais. O valor estimado é de R$ 5 por saca adicional. “Se os nossos vendedores conseguem agregar um valor à saca, o café dessas mulheres ganha ainda mais visibilidade”, diz Thamiris.

O protocolo está concluído e será implantado como piloto ainda em 2026, com coleta de dados e ajustes nas propriedades participantes. A validação pela GCP está prevista para janeiro do próximo ano, quando se encerra o período quinquenal de revisão de equivalências da plataforma.

A partir da certificação, o café das cooperadas que saírem pela COEXP Cocatrel Exportadora já carregará o diferencial negociado. A Cocatrel também articula com a IWCA Brasil o uso do selo da aliança internacional para exportação, voltado especificamente para compradores europeus com preferência documentada por cafés produzidos por mulheres.

Uma corrida em busca de qualificação

Nilse Lúcia Cardoso, 54 anos, é dona do Sítio Campos das Candeias, uma área de morro, de 6 hectares, dos quais em 4 hectares estão 20 mil pés de café. As pequenas propriedades representam a maioria das cooperadas. Nilse entrou no Cafeína sabendo o que queria: na primeira análise de seu café o resultado foi 84 pontos. Mas para ela, a pontuação foi uma revelação: como pode um café de sítio familiar, seco no terreiro sem maquinário ser exportado como especial?

Cocatrel
Nilse Lúcia Cardoso, do Sítio Campos das Candeias

“Eu almejava muito, queria muito, mas não sabia que seria assim tão rápido”, conta ela sobre a análise feita em 2019. Desde então, sua pontuação se mantém entre 81 e 84 pontos, porque qualidade não é um caminho simples. Mas para a renda da família, que vem integralmente do café, esse é o caminho.

Filha de produtores, ela é de uma época na qual as mulheres saiam das propriedades para estudar e raramente voltavam. Trabalhou quase 20 anos em uma empresa industrial, onde chegou a encarregada de produção. Mas quando os filhos cresceram e os pais morreram, ela não teve dúvida: enquanto dois dos cinco irmãos venderam suas partes da herança, Nilse não considerou essa opção nem por um momento.

“Acho que o ponto de na minha história foi esse: decidir voltar. Às vezes encontro mulheres que trabalhei e elas me falam: você não se arrependeu? Respondo que gostaria de ter voltado antes para a terra.”
O retorno foi exatamente quando o Grupo Cafeína dava seus primeiros passos. Nilse conta que ligou no dia seguinte ao contato inicial com a coordenadora do grupo e recebeu orientação técnica. A lavoura foi podada, esqueletada, renovada, e o café passou a ser tratado como fruta, com controle rigoroso de maturação e secagem.

“Antigamente, o café que perdesse qualidade era visto como perdido. Hoje, no pós-colheita, sei que tem como recuperar”, diz Nilse. “E quando você vê um grupo de mulheres que o objetivo é apoiar umas às outras, acende uma luz. O grupo Cafeína foi fundamental para mim,porque conversamos e trocamos ideias sobre propriedade, lavoura, produção, melhora, qualidade.”

A avó que não sabia quanto o marido colhia e a neta que vai ser sucessora

O Sítio Jequitibá também é uma pequena propriedade de Três Pontas: são 12 hectares, dos quais 8,5 têm café. A produção atual é de 200 sacas por ano, com mão de obra exclusivamente familiar.

Claudineia Moreira, 43 anos, bisneta de produtor, é a mãe Marianne Moreira Corrêa, 23 anos. Foi Marianne quem incentivou a mãe a fazer os cursos do Cafeína, e é ela quem vai dar continuidade ao sítio, mesmo que o sonho de infância seja outro. “Meu sonho desde pequena é cursar medicina, mas sei que a sucessão vai ser minha. Café realmente é uma paixão”, diz Marianne.

Cocatrel
Claudineia Moreira e sua sucessora, a filha Marianne Moreira Corrêa, 23 anos

A mãe cresceu na roça, foi para a cidade para estudar, formou-se professora, casou com um motorista também criado no campo e passou 13 anos fora. No retorno, há 9 anos, encontrou sua parte da herança abandonada. Ela conta que junto com o marido a primeira ação foi entrar para a Cocatrel e obter financiamento. Mas o casal atravessou quase dois anos sem produção, por causa de uma geada em 2021.

“Foi muito difícil, mas o que a gente tinha era aquilo”, diz Claudineia. “Foi quando comecei a fazer os cursos que vi como estava tudo errado: ‘nós temos que mudar’”, diz ela.

O grupo ensinou a secar o café no terreiro, a controlar a maturação e a entender o impacto de cada etapa do processamento. A mudança também passou por um confronto interno. Os irmãos de Claudineia desqualificavam sua opinião sobre o manejo. “Eu vivi preconceito da própria família. Até meus irmãos diziam ‘ela não sabe nada, ela não entende nada’. Mas não aceitei isso e foram os cursos que me deram argumentos para eu bater de frente.” Ela agora está em busca de seu café pontuado para exportar via Cafeína, o que acredita que chegará até o final de 2027.

O padrão de invisibilidade tem nome e história na própria família. A mãe de Claudineia trabalhou a vida inteira no café, do lado do marido, de enxada à panha, mas nunca soube quanto o sítio produzia. “Ela não sabia quanto produzia de café, por quanto vendia, o quanto colhia”, diz Claudineia. E Mariane completa: “Minha avó nunca participou da gestão do café, porque quem tomava conta era o meu avô. Então, vejo hoje que as mulheres realmente precisam de um grupo como o Cafeína para elas verem o tamanho da importância delas dentro do café”.

Marianne conhece Dona Henriqueta, que não viaja mais para feiras nem para eventos. Os 103 anos pedem planejamento cuidadoso em cada saída. Mas em janeiro deste ano, quando completou mais uma volta ao sol, estava rodeada pelas mulheres do Grupo Cafeína. As mesmas que, meses antes, tinham visto o vídeo do centro empresarial de Londres.

Entre Henriqueta, que entrou para a Cocatrel em 1984, e Marianne, que ainda prepara o vestibular enquanto decide o futuro do Sítio Jequitibá, há quatro gerações de mulheres que trabalharam o café sem saber quanto produziram, quanto venderam, quanto valeu. O Grupo Cafeína é o instrumento que está mudando essa conta e colocando o nome dessas mulheres na sacaria que sai para o mundo. A geografia sempre importou. O verbo, agora, também.

Publicado por: Vera Ondei – Forbes Agro

Fonte: https://forbes.com.br/forbes-agro/2026/04/dona-henriqueta-a-centenaria-que-se-tornou-simbolo-do-maior-grupo-cooperativo-de-mulheres-do-cafe-no-mundo/

Fotos: Divulgação Forbes Agro

Fonte: CCCMG

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