T Ó P I C O : Coluna: Sobre equilibrar o ideal e o possível na produção de café - Por Jonas Leme Ferraresso
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Coluna: Sobre equilibrar o ideal e o possível na produção de café - Por Jonas Leme Ferraresso
Autor: Leonardo Assad Aoun
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Último comentário neste tópico em: 23/01/2026 11:59:52
Leonardo Assad Aoun comentou em: 23/01/2026 12:19
Coluna: Sobre equilibrar o ideal e o possível na produção de café - Por Jonas Leme Ferraresso
Por Jonas Leme Ferraresso
Os desafios de produzir café de forma sustentável, ao mesmo tempo em que se mantêm bons níveis de produtividade, vão muito além das considerações financeiras. Embora avaliar investimentos e lucros em um mercado instável seja fundamental, o desafio maior está em reduzir a distância entre o que é tecnicamente possível e a realidade prática do campo.
O dia a dia de quem trabalha no campo é pautado muitas vezes em fazer o que é possível, mas nem sempre o que seria o modelo ideal de cultivo. Estresse climático, falta de mão de obra, oscilações no mercado das commodities e inflação são obstáculos que os produtores enfrentam todos os dias apenas para manter suas operações em funcionamento.
Ao longo de mais de uma década atuando com sistemas de produção sustentável, incluindo orgânicos, regenerativos, agroflorestais, biodinâmicos e diferentes modelos de certificação, além de trabalhar também com sistemas convencionais, aprendi uma das lições mais importantes: independentemente do modelo de manejo, o café precisa continuar sempre sendo o protagonista do sistema produtivo, se o objetivo de fato é produzir café.
Isso pode soar óbvio, mas na prática muitas vezes não é para alguns players da cadeia.
Café como protagonista
Em muitos projetos de sustentabilidade e programas de certificação com os quais trabalhei ou tive contato ao longo dos anos, esse princípio parece se perder em algum ponto entre os diversos manuais de gestão e cultivo, e seus planos de ação. Não costuma ser intencional, em minha visão, isso reflete apenas uma visão estreita sobre a realidade de uma propriedade de café, e sua dinâmica de funcionamento.
Um campo de café é prioritariamente um negócio, e claro precisa ser lucrativa. Só assim o capital que ela gera pode sustentar e motivar o produtor a continuar melhorando, oferecendo ao mercado cafés de boa qualidade, mais sustentáveis e mais resilientes.
É importante deixar claro que, produzir mais café não significa degradar mais, degradar mais significa produzir a qualquer custo.
Acredito firmemente que cada propriedade, e cada produtor, tem um modelo único, que funciona melhor para sua realidade específica. Soluções engessadas, do tipo “tamanho único para todos”, podem até funcionar em certa medida, mas raramente alcançam o objetivo principal: manter o produtor dentro de um sistema sustentável, produtivo, e viável a longo prazo.
O tripé para produtividade sustentável
Se considerarmos o café como protagonista, existe um tripé básico de alguns fatores que lideram o caminho para alcançar boas produtividades e rentabilidade, mantendo a sustentabilidade:
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Qualidade do solo: O solo saudável é base de qualquer sistema produtivo. Um bom balanço químico, boa estrutura física, e um sistema biologicamente ativo, promove a dinâmica adequada de transformação dessa terra.
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Genética: Variedades de Coffea adaptadas e estudadas para a região alvo, manejo adequado, resistentes a pragas e doenças, vigorosas e com bom potencial produtivo serão seus parceiros por mais de uma década provavelmente.
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Clima: Chuva e temperatura devem ser adequadas para as espécies, e variedades cultivadas, mas esse fator não podemos controlar diretamente.
Tudo o que buscamos construir com um bom projeto e negócio rural é: sustentabilidade, resiliência e rentabilidade. Dessa base, brotam as estratégias e artifícios utilizados para manter o tripé firme, cabendo ao técnico e produtor de café definirem a base científica, e estratégias para alcançar o sucesso do negócio rural.
Adaptando soluções à realidade
A seguir apresento três cenários hipotéticos comuns, que ilustram como esses princípios se traduzem na prática, e como pensamos quando discutimos soluções individuais.
1. Regiões muito quentes, acima da média para Coffea arabica
Sistemas agroflorestais podem ajudar a moderar temperaturas, mas exigem planejamento cuidadoso: espaçamento, escolha de espécies arbóreas de cobertura, exposição solar, densidade de plantio, disponibilidade de mão de obra para manejo das árvores, e o comportamento das variedades sob sombra são cruciais para que a solução não acabe gerando um novo problema.
2. Regiões com temperaturas amenas, mas baixa precipitação (menos de 1.000 mm/ano)
Sistemas regenerativos podem ser eficazes aqui. O uso de matéria orgânica, cobertura de solo, adubos verdes e microrganismos eficientes ajudam a reter umidade, e manter a vida, e dinâmica do solo. Sempre que possível, escolher variedades tolerantes à seca, ou plantas enxertadas com sistemas radiculares mais vigorosos.
Distribuir a fertilidade ao longo do perfil do solo também ajuda as raízes a explorar camadas mais profundas. Se houver disponibilidade de água, ou possibilidade de armazenamento durante a estação chuvosa, a irrigação localizada por gotejamento pode complementar a estratégia produtiva.
3. Regiões adequadas ao cultivo de arábica, mas com baixos rendimentos
Nesses casos, a solução costuma estar no solo. Café precisa não apenas de fertilizante, mas de nutrição equilibrada, a falta de um único nutriente pode limitar todo potencial produtivo da lavoura.
Um preparo inadequado do solo no plantio, ou mudas de baixa qualidade são problema bem frequente no campo, e saiba que uma plantação mal estabelecida é um problema quase impossível de se corrigir. Às vezes, infelizmente, somente o replantio podera gerar resultados satisfatórios.
Em solos mais arenosos por exemplo, existe também uma tendencia a baixa retenção de nutrientes, portanto estes se beneficiam muito do aumento de matéria orgânica para melhorar o potencial de retenção, e absorção de nutrientes; manter uma boa cobertura do solo também evita perdas por lixiviação desses minerais. Nesses problemas podemos falar de infestação de nematoides, espaçamentos inadequados, etc. O ponto é entender que a identificação do problema, e desenvolvimento da solução é um caminho conjunto entre produtor e técnico.
Conceitos simples, soluções complexas
Esses exemplos demonstram algo que eu costumo dizer: o conceito é simples, mas a solução é complexa.
Não é incomum que uma propriedade enfrente múltiplos problemas, e que ainda haja a interação destes, o que é inclusive uma condição natural em qualquer agroecossistema. Um clima quente pode se combinar com solo pouco estruturado, e falta de mão de obra. Baixa precipitação pode coincidir com escolha inadequada de uma variedade, e capital limitado para irrigação.
Por isso, meu conselho é: pense primeiro no café. Ele é o foco principal para a maioria dos produtores. A partir daí, construa sistemas de apoio sustentáveis que reforcem o papel do café como protagonista e mantenham o produtor forte, produzindo com qualidade, rentabilidade e responsabilidade.
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