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T Ó P I C O : Brasil precisa ter postura prudente com incerteza do mercado

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Brasil precisa ter postura prudente com incerteza do mercado


Autor: Leonardo Assad Aoun

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Último comentário neste tópico em: 01/04/2025 11:13:33


Leonardo Assad Aoun comentou em: 01/04/2025 11:11

 

Brasil precisa ter postura prudente com incerteza do mercado

 

Professor e coordenador do agronegócio global do Insper, Marcos Jank, orientou cooperados da Cooxupé sobre cenários internacionais com medidas de Trump

Brasil precisa ter postura prudente com incerteza do mercado

A relação geopolítica e a incerteza do mercado global, o contexto das políticas comerciais e tarifárias impostas no governo Trump. Ainda assim, o cenário mundial agro brasileiro e do café, além dos desafios e oportunidades foram temas abordados pelo professor e coordenador de agronegócio global do Insper, Marcos S. Jank. A princípio, os assuntos foram discutidos antes do início da Assembleia Geral Ordinária da Cooxupé. A palestra foi realizada para os cooperados no último dia 28 de março.

Incerteza do mercado

Segundo Jank, a geopolítica tem um papel crucial no comércio internacional, especialmente para o café brasileiro. Entretanto, o mercado vive um clima de incerteza criado em razão das ameaças tarifárias e retaliações do presidente americano Donald Trump.

“Alguns falam que uma nova ordem internacional está vindo por aí, entretanto ninguém sabe como vai acontecer. Ele (Trump) simplesmente está ignorando as regras globais e passa a criar as próprias regras, negociando direto sem ouvir os outros países. Quando ele coloca 25% de tarifas sobre automóveis e peças, por exemplo, afeta uma indústria global”, explica.

Brasil e ‘guerra comercial’

Em relação ao posicionamento do Brasil sobre a ‘guerra comercial’, Marcos Jank aponta que o cenário ideal é o país ficar fora da discussão. Desse modo, para não ser afetado e, consequentemente, ganhar mercado. “Quando Trump foi presidente dos EUA em 2017, aumentou a tarifa contra a China e o país asiático retaliou nos produtos agrícolas americanos. Em contrapartida, o Brasil explodiu no mercado de exportação para os chineses. Hoje, o país exporta 50 bilhões de dólares todo ano. Ou seja, na primeira guerra comercial o Brasil ganhou espaço na China, agora não sabemos se estaremos dentro ou fora das medidas de Trump”, argumenta. 

De antemão, no próximo dia 2 de abril, o presidente norte-americano promete anunciar medidas contra todos os países que têm tarifas altas contra os Estados Unidos. O Brasil, assim como o resto do mundo, está à espera dos decretos de Donald Trump, impondo tarifas às importações dos EUA de produtos e países diversos.

Crescimento da exportação

Durante a palestra, o professor expôs que o saldo da balança comercial brasileira em 2024 foi de US$ 120 bilhões em exportações, com destino para mais de 200 países. Sendo os principais mercados a China, Ásia, Estados Unidos e a Europa. Ainda em relação ao ano passado, Jank comentou que o café brasileiro alcançou recorde histórico ao exportar 50,4 milhões de sacas de café de 60kg. Do mesmo modo, a marca rendeu US$ 12,5 bilhões com as remessas de café ao exterior (valor 55% superior ao registrado em 2023).

O Brasil tornou-se o maior exportador mundial de commodities do agronegócio. Aliás, ultrapassando os Estados Unidos, diante crescimento expressivo de produção de soja, milho, carnes, café, açúcar, celulose, entre outras culturas. No entanto, o especialista de agronegócio pontuou que o país precisa crescer no mercado de especialidades para exportar produtos diferenciados para o resto do mundo. No caso do café, ele exemplifica a Cooxupé e a SMC Specialty Coffees, a casa de cafés especiais da cooperativa.

“A Cooxupé, por meio da SMC, atua no mercado de cafés especiais. Veja, a cooperativa tem essa visão com seus produtores de comercializar para o exterior cafés especiais e certificados. É um movimento que o agro brasileiro precisa fazer para atender o segmento deste mercado competitivo e levar produtos diferenciados”, ressalta.

Mercados potenciais

Palestra com Marcos Jank aconteceu no último dia 28 de março, antes do início da Assembleia Geral Ordinário da cooperativa

Marcos Jank apresentou dados referentes ao mercado, como também da consolidação do Brasil como maior produtor de café do mundo. Isto é, o país segue à frente de produtores como Vietnã, Colômbia e Indonésia. Das 145 milhões de sacas de café exportadas, o Brasil é o maior distribuidor do mercado com 31% (um terço do comércio mundial). Desde já, com principais destinos para Europa, Estados Unidos e Japão.

No entanto, o professor alerta para o aumento da demanda global de países emergentes. E aponta a Ásia (em especial a China) e África como mercados potenciais futuros.

“O café tem um potencial futuro extraordinário e esse crescimento está associado com o consumo nos países emergentes. Hoje, o mundo tem 8 bilhões de habitantes e se traçarmos crescimento para 10 bilhões de pessoas até 2050, metade dessa diferença vai nascer na África e Índia. E o crescimento populacional precisa de proteína, de café, de açúcar e produtos básicos. Além do aumento de número de pessoas, fatores como urbanização desses países e mudança de hábitos também serão determinantes”, observou.

Desafios e Oportunidades

Diante de todo cenário incerto do mercado global, os produtores precisam ficar atentos e se adaptarem à volatilidade na produção devido ao clima e na comercialização por conta de preços e políticas comerciais.

Conforme Marcos Jank, as cooperativas têm papel fundamental na orientação ao produtor. “A Cooxupé é uma das maiores cooperativas de café do mundo e uma das mais eficientes do Brasil. A cooperativa está aqui para isso: ajudar o produtor nesse processo de decisão em um mundo complexo, instável e incerto”, diz.

Para explorar ainda mais estes temas, o Hub do Café entrevistou Marcos Jank. Confira:

Trump

Hub: O mercado internacional está preocupado com as decisões do presidente Donald Trump. O que podemos falar sobre este cenário e das posturas dele com o comércio global?

MJ: Eu acho que a questão geopolítica global é uma das principais ameaças hoje, principalmente agora com a eleição do Trump. Podemos dizer que, de 1990 a 2000, foram anos da globalização, da integração político-econômica, inclusive da China. Mas, de 2000 para frente, o negócio começou a desandar. A diferença, agora, com o Trump é que ele simplesmente ignora tudo que existe de regras globais e começa a criar as próprias regras sem ouvir os outros. Então, a gente começa a ficar muito assustado, pois pode virar contra o Brasil. O café é o terceiro maior produto que exportamos para os Estados Unidos (atrás de celulose e carne) e arrecadamos US$ 2 bilhões. Na Europa, por exemplo, são US$ 6 bilhões. Ou seja, são dois clientes muito importantes para o País e para o café. Por isso, devemos ficar antenados com as movimentações do mercado.

Posicionamento do Brasil

Hub: Como o Brasil deve se posicionar diante dessa situação? Como o país pode ganhar mercado e avançar dentro desse cenário?

MJ: Em 2017, na primeira guerra comercial, que foi só bilateral, os Estados Unidos aumentaram as tarifas contra a China. Os chineses retaliaram também todos os produtos, impactando o agro americano, e o Brasil ‘explodiu’ ao exportar para a China, pois os americanos estavam com tarifas altas. Então, é bom que fiquemos fora da guerra comercial. É o momento de ter um posicionamento sereno, sem falar muito e comprar briga.

Nós temos superávit comercial com os EUA. Fico preocupado, sim, de sobrar alguma coisa, pois o nosso café está tanto nos Estados Unidos quanto Europa. Mas, acho que, pelo fato do café ser um produto tropical e que, portanto, não é produzido nem nos Estados Unidos e nem na Europa, isso nos dá uma certa condição especial de fornecedor. E temos que, obviamente, assimilar os riscos como o fato de o café ser uma cultura perene. Quando você tem um problema de clima, ele se estende, diferente de outros produtos.

Commodities agrícolas

Hub: O Brasil se destaca na produção e exportação de commodities agrícolas, mas há o nicho de produtos especiais, dentre eles o café. Quais são as oportunidades para o produtor e para o Brasil elevarem essa cadeia de valor?

MJ: O Brasil é tão bom em fazer commodities que ninguém vai nos superar. Além disso, o país tem condições de expandir e estamos em uma posição confortável. Agora, a gente não precisa só fazer commodities. Podemos ter uma relação que vai além do importador e entrar nas cadeias de valor (especialidades) dentro do país e descobrir o que é feito por lá. Cinco anos atrás, ajudei o setor de algodão a se instalar na Ásia, pois 90% do algodão brasileiro vai para o continente. Eles fizeram escritório por lá e passaram a conversar com as tecelagens, empresas de roupa, com empresas da fiação e esse intercâmbio resultou numa melhora de imagem do algodão brasileiro e foi fantástico.

O café, de repente, poderia pensar numa estratégia assim. O café commodities tem um espaço garantido, mas na questão de fazer valor adicionado, como um produto diferenciado, a gente ainda faz pouco. Nosso café não é pior do que o da Colômbia. A diferença é que eles estão fazendo mais comunicação. A Cooxupé tem a SMC Specialty Coffees que atua no mercado de cafés especiais. Esse segmento pode, com o tempo, se expandir e ter uma representação de marca no exterior, de origem, de qualidade, de padrão diferenciado, com marca própria. É uma evolução que o café pode ter, mas não quer dizer que o que estamos fazemos esteja errado. Quero dizer que podemos fazer mais e agregar esse valor.

Mercados futuros

Hub: Em sua palestra, você aborda aumento da demanda global de países emergentes e aponta Ásia e África. São mercados potenciais para o Brasil explorar?

Eu fiquei surpreso com os números, porque você vê que os países ricos como Estados Unidos, Europa, Canadá e Japão, em relação a produtos de café, a importação está flat. Aí você vê países como China, Filipinas, Turquia e México crescendo em dois dígitos ao ano, na última década. Isso significa que nestes países as pessoas estão descobrindo o café. A China está com 5,3 milhões de sacas, não é nada para uma população de um bilhão de habitantes. O consumo é muito mais baixo que o nosso, da Europa e dos Estados Unidos.

Então, isso é uma oportunidade extraordinária, levar café para o chinês urbano. Porque há 40 anos, o chinês era rural e só tomava chá. Agora, estão migrando para café. Quando vivi na Ásia, de 2014 a 2019, percebi a quantidade de cafeterias que foram surgindo nesses anos. Foi impressionante, em um país onde o pessoal dizia que o asiático não gostava de café e, sim, de chá. Uma mudança de cultura mesmo e de hábitos alimentares fantástico.

Fonte: Hub do Café

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