T Ó P I C O : Produtores rompem tradição e mudam realidade do café arábica no noroeste do estado
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Produtores rompem tradição e mudam realidade do café arábica no noroeste do estado
Autor: Leonardo Assad Aoun
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Último comentário neste tópico em: 30/01/2026 11:48:20
Leonardo Assad Aoun comentou em: 30/01/2026 12:09
Produtores rompem tradição e mudam realidade do café arábica no noroeste do estado
Com investimentos em manejo, irrigação e tecnologia, a produtividade das lavouras mais que dobram
Por Rosimeri Ronquetti | Conexão Safra

Adair Borges, produz 11 mil pés de arábica, metade é irrigado. Foto: arquivo pessoal
Diferente do café conilon, no qual os produtores investem pesado em tecnologia e manejo das lavouras, com o arábica, tradicionalmente, ocorre o contrário. Culturalmente considerado um café rústico, que não necessita de muitos tratos culturais, até pouco tempo práticas como irrigação e poda programada eram quase inexistentes no cultivo do arábica.
Mas, aos poucos, essa realidade começa a mudar em todo o estado, com destaque para a região Noroeste. Cafeicultores de municípios como Mantenópolis e Alto Rio Novo decidiram investir e viram o rendimento por hectare mais que dobrar.
“Iniciamos a poda programada em 2014 e foi uma revolução, agregou muito à nossa produtividade. Em 2019, comecei com a irrigação e hoje já fazemos a fertirrigação. Nas últimas cinco safras, colhemos uma média de 55 sacas por hectare, enquanto produtores que não adotam essas práticas colhem entre 20 e 25 sacas, em média.”
O depoimento é do cafeicultor Alcy Rinell Firmino Marçal, de 27 anos, produtor de arábica no Sítio do Nana, em Mantenópolis. Ele conta que, contrariando a vontade do pai, começou a irrigar apenas um hectare para fazer um teste.

Sítio do Nana, café arábica 785/15 irrigado, segunda colheita. Foto: Instagram/cafesitiodonana
“Comprei uma bomba e canos de irrigação usados e fiz um bom acompanhamento da lavoura. O resultado foi um acréscimo de 20 sacas naquele hectare irrigado, em relação aos demais. Hoje, meu pai já implantou o sistema em quase todas as áreas de café que ele cuida”, explicou.
Alcy acrescenta ainda que, na região onde mora, aproximadamente 90% dos produtores de arábica já realizam a poda, e cerca de 30% utilizam irrigação.
No município vizinho, Alto Rio Novo, Adair Borges, de 51 anos, produz 11 mil pés de arábica no Sítio Recanto. Desse total, metade é irrigada e recebe fertirrigação. Toda a lavoura passa por poda programada.
“A rentabilidade na parte irrigada é muito maior. Calculo cerca de 40% a mais se comparado ao não irrigado”, destaca Adair.
Ao contrário de Alcy e Adair, que já trabalhavam com café há anos e investiram em manejo há pouco tempo, Clóvis Andreazza Soares de Oliveira, de 53 anos, e o filho, Gabriel Louzada Rosa Soares Oliveira, de 22, da Fazenda Rondoninha, na localidade de Córrego Jequitibá, distrito de Monte Carmelo, em Alto Rio Novo, iniciaram o cultivo de forma diferente. Os cuidados começaram desde a escolha das variedades.
Em 2024, Clóvis plantou dois hectares, cerca de 10 mil pés, com 16 variedades diferentes, para testar quais apresentarão melhor desempenho. Nesse talhão, são realizadas poda e adubação conforme indicação técnica, além de análise e correção do solo, mas sem irrigação.

Clóvis Andreazza Soares de Oliveira, e o filho, Gabriel. Foto: arquivo pessoal
“Como não tem irrigação, tive o cuidado de plantar variedades diferentes de acordo com cada realidade. Onde pega muito vento é uma variedade; onde pega sol o dia todo, é outra; e onde bate sol da tarde, outra. A expectativa, pela estrutura da planta, é colher 40 sacas por hectare já na primeira colheita e de 60 a 80 sacas a partir do ano seguinte”, conta o produtor.
Na parte mais elevada do terreno, Clóvis está implantando 90 hectares. Toda a área terá irrigação por gotejamento, fertirrigação, e o plantio será feito com composto orgânico nas covas. A previsão é colher uma média de 60 a 70 sacas por hectare. O produtor também está investindo em microterraceamento.
“Nos levantamentos preventivos, vi que, para plantar café aqui na nossa realidade de morro, era preciso investir em tecnologia para colher mais com menos, produzir um café mais barato e diminuir a mão de obra.”
Rodrigo Fernandes, responsável pela Unidade de Referência de Cafés Especiais de Alto Rio Novo, explica que o rendimento do arábica no Espírito Santo ainda é baixo, com média de 18 a 20 sacas por hectare.
O grande desafio, segundo ele, é mudar a mentalidade dos cafeicultores, já que pesquisas para o desenvolvimento de novas cultivares estão em andamento.
“De 100% dos produtores de arábica de Alto Rio Novo, apenas cerca de 30% investem em tecnologia na produção. É uma questão cultural, e mudar essa mentalidade é um processo lento. Estamos fazendo um trabalho de formiguinha, tentando conscientizar os mais jovens e, aos poucos, a adesão vai acontecendo”, pontua Fernandes.
No município vizinho, Mantenópolis, os esforços para transformar a forma como os produtores conduzem as lavouras começaram há pouco mais de cinco anos. Claudinei de Sales Silva, técnico em agropecuária da Secretaria Executiva de Desenvolvimento Rural do município, lembra que, no início, houve muita resistência, mas avalia que o cenário vem melhorando.
“As lavouras eram conduzidas de modo muito arcaico, e enfrentamos muita resistência por parte dos produtores. À medida que foram vendo as mudanças nos cafezais de quem aderiu às tecnologias, a mentalidade começou a mudar e a resistência vem diminuindo. Acredito que cerca de 60% já façam uso de alguma tecnologia”, detalha.
Segundo Claudinei, as principais tecnologias adotadas são a poda programada, que apresenta bons resultados e facilita a mão de obra, e a fertirrigação automatizada.
“A fertirrigação tem sido um sucesso nas lavouras de arábica. Muitos produtores não irrigavam. Hoje, têm trabalhado de forma eficiente, e isso tem funcionado muito bem, aumentando significativamente a produtividade.”
O trabalho de orientação aos cafeicultores é realizado pela Secretaria de Agricultura, em parceria com o Incaper.
Mais cuidado, melhor qualidade
As vantagens da adoção dos tratos culturais no arábica também se refletem na qualidade dos grãos. Produtor de cafés especiais, Alcy explica que os cuidados com o manejo fazem toda a diferença.
“A nutrição equilibrada das plantas, com água na hora certa, resulta em uma planta menos estressada, fazendo com que ela entregue o que tem de melhor para o grão. Ou seja, temos grãos maiores, mais uniformes e com sabores incomparáveis”, salienta.
O objetivo de Clóvis, com os investimentos desde o plantio do arábica, vai além da produtividade e mira também a qualidade.
“Pretendo trabalhar com café especial. Quando melhoramos os tratos, melhoramos o café produzido. E café melhor vale mais, é vendido por um preço melhor.”
No caso de Adair, dono da marca Café Pico dos Abelheiros, a decisão de iniciar o manejo ocorreu por dois motivos: curiosidade e qualidade.
“Pensava: se no conilon dá certo, por que não no arábica? Além disso, com melhor cuidado, o café poderia produzir grãos maiores e de melhor qualidade”, destaca.
Em 2015, antes mesmo de produzir cafés especiais, Adair já havia abolido o uso de agrotóxicos para a limpeza da lavoura e passou a realizar a roçada nas entrelinhas do cafezal.
Novas cultivares
Se, por um lado, os produtores começam a aderir às boas práticas de manejo e às tecnologias, por outro, pesquisadores atuam no desenvolvimento de novas cultivares.
Em 2025, o Incaper divulgou o resultado de um estudo que validou dez cultivares que se destacaram pela alta produtividade, qualidade superior dos grãos e menor necessidade de defensivos em 12 municípios das regiões das Montanhas, Caparaó e Noroeste do Espírito Santo.
O instituto também lançou uma cartilha com informações detalhadas sobre as cultivares indicadas, apontando o comportamento e o desempenho em cada região. O material reúne dados sobre produtividade, qualidade da bebida, resistência a pragas e doenças, vigor vegetativo, rendimento de peneira, adaptabilidade e estabilidade de produção.
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