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T Ó P I C O : Viciados em café conseguem sentir o cheirinho do grão bem antes

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Viciados em café conseguem sentir o cheirinho do grão bem antes


Autor: Leonardo Assad Aoun

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Último comentário neste tópico em: 15/05/2019 08:46:02


Leonardo Assad Aoun comentou em: 15/05/2019 08:59

 

Viciados em café conseguem sentir o cheirinho do grão bem antes

 

Os apreciadores do grão detectam o seu aroma mesmo em quantidades bem diluídas e antes dos bebedores não habituais. Resultado de pesquisa britânica poderá ajudar no combate a vícios mais graves

Pode parecer desculpa de quem quer dar o primeiro gole logo pela manhã. Mas é verdade. Viciados em café conseguem sentir o cheirinho do grão bem antes dos bebedores não habituais, segundo um estudo conduzido na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido. O experimento com mais de 90 voluntários mostrou ainda que, quanto maior o desejo pela bebida, mais aguçada é essa habilidade.

“Aqueles usuários mais elevados de cafeína foram capazes de detectar o odor de um produto químico muito diluído e em concentrações muito mais baixas. Essa capacidade aumentou com o nível de desejo. Então, quanto mais eles desejavam cafeína, melhor o olfato para café”, conta Lorenzo Staf-ford, especialista em olfato do Departamento de Psicologia da universidade britânica e líder do estudo, divulgado ontem, na revista Experimental and Clinical Psychopharmacology.

Segundo o cientista, este é o primeiro estudo a comprovar que viciados em café são mais sensíveis ao cheiro do grão. A aposta dele e da equipe é de que o resultado abra as portas para o desenvolvimento de potenciais novas formas de terapia de aversão, voltadas para indivíduos dependentes de substâncias com cheiros distintos, como tabaco e cannabis.

Lorenzo Stafford lembra que já se sabe que o cheiro de álcool pode despertar o desejo de beber em alcoólatras. O trabalho conduzido pelos britânicos avança nessa discussão. “Mostramos com uma droga levemente aditiva que o desejo pode estar ligado à maior capacidade de detectar uma substância que vicia. A cafeína é a droga psicoativa mais amplamente consumida. Essas descobertas sugerem que mudanças na capacidade de detectar odores poderiam ser um índice útil de dependência de drogas”, justifica.

Olhos vendados


A pesquisa foi conduzida em duas etapas. Na primeira, 62 voluntários, homens e mulheres, foram divididos em três grupos: aqueles que nunca beberam qualquer coisa contendo cafeína, aqueles que consumiam quantidades moderadas do composto (de 70mg a 250mg, de uma a três xícaras e meia de café instantâneo por dia) e os bebedores de alta quantidade (ao menos de 300mg por dia, ou, no mínimo quatro xícaras).

Os participantes tiveram os olhos vendados para participar dos testes de sensibilidade. Primeiro, foi solicitado que diferenciassem quantidades muito pequenas do odor do café entre outros odores mais neutros. Depois, tiveram que identificar o mais rápido possível qual cheiro correspondia ao da bebida verdadeira e qual era uma essência. Os voluntários do terceiro grupo apresentaram melhores desempenhos em ambos os experimentos.

Na segunda etapa da pesquisa, outros 32 voluntários foram divididos em dois grupos: os que bebem e os que não bebem café. Depois, foram submetidos ao mesmo teste de detecção de odor da substância e a outro em que havia também o cheiro de um produto não alimentar. Novamente, os resultados mostraram que os consumidores de doses maiores de cafeína são mais sensíveis ao odor do café, mas não houve diferença quanto à sensibilidade ao outro tipo de cheiro.

Cada voluntário também foi convidado a preencher um questionário sobre o desejo por cafeína. Previsivelmente, os cientistas identificaram que, quanto mais a pessoa bebia café diariamente, maior a vontade pelo composto. “O que é ainda mais interessante é que detectamos que os casos em que havia maior desejo pela bebida, aqueles em que medimos a capacidade da cafeína de reverter os sintomas de abstinência, como a fadiga, estavam relacionados à maior sensibilidade no teste de detecção de odor”, ressalta Stafford.
 

Nem precisa beber


Pesquisadores australianos sugerem que é possível usufruir dos sintomas do café sem precisar ingeri-lo. Trata-se do efeito placebo da bebida, funcionando ao estimular a visão ou o olfato, por exemplo. “Passear pelo café favorito, cheirar os odores da borra de café ou mesmo testemunhar sugestões relacionadas à bebida na forma de publicidade pode desencadear os receptores químicos suficientes para obtermos as mesmas sensações de excitação”, explica Eugene Chan, professor sênior da Monash Business School.

Segundo o cientista, isso ocorre porque não é preciso ingerir a cafeína para ativar os efeitos psicoativos da bebida. O cheiro dela já é capaz de fazer isso. “O cérebro dos consumidores habituais está condicionado a responder ao café de certas maneiras”, explica. “Isso ajuda até mesmo a explicar como beber café descafeinado pode produzir tempo de reação mais rápido em tarefas. Talvez, a associação mental entre café e excitação seja tão forte que possa produzir mudanças cognitivas mesmo quando não há ingestão de cafeína fisiologicamente”, cogita.

Na pesquisa, 871 participantes, provenientes de culturas ocidentais e orientais, participaram de experimentos diversos. Tiveram que criar slogans publicitários para café ou chá. Depois, fazer um bloco de notícias sobre os benefícios para das bebidas para a saúde.

Mais energia


Enquanto as tarefas eram realizadas, os voluntários tiveram os níveis de excitação e de frequência cardíaca monitorados. Os resultados mostraram que o desafio de produzir algo que convencesse as pessoas a beber café aumentou a atenção, os níveis de energia e a frequência cardíaca dos participantes, além de levá-los a pensar de forma restrita. Os efeitos foram maiores no grupo pertencente a países ocidentais, onde a bebida é mais popular e tem conotações relacionadas a energia, foco e ambição.

“Isso aumenta a quantidade crescente de literatura que documenta que os alimentos e as bebidas que consumimos fazem mais do que simplesmente fornecer nutrição ou prazer. A exposição ou lembranças ligadas a eles afetam a forma como pensamos”, frisa Eugene Chan. A pesquisa foi divulgada na edição de abril da revista Consciousness and Cognition.

Fonte: Correio Braziliense

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