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T Ó P I C O : Cheiro de café

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Cheiro de café


Autor: Leonardo Assad Aoun

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Último comentário neste tópico em: 12/02/2019 10:37:38


Leonardo Assad Aoun comentou em: 12/02/2019 11:10

 

Cheiro de café

 

NANDO LOPES

De repente, percebo um cheiro de café coado alastrando por toda a casa. Assumo o habitual descuido com as tarefas domésticas e, angustiado, certifico se não esqueci nada ao fogo. Respiro aliviado. Por sorte, as chamas do fogão estão desligadas. Embora o desassossego permaneça: de onde vem o aroma de café que chamou minha atenção?
 
Acaso fosse o simples cheiro de um cafezinho saindo da garrafa, poderia providenciar uma dose sem muita demora. Seria prático resolver. Só que senti o aroma de café feito com grãos torrados e moídos há pouquíssimo tempo, algo improvável de acontecer na minha cozinha, desprovida de equipamentos e técnicas para a torra. Incrédulo com a fragrância, eu cheguei a cogitar que talvez o vizinho estivesse torrando café no terraço do prédio. Improvável, retifiquei meus pensamentos. Afinal, os vizinhos não são adeptos às atividades artesanais e, tampouco, a peraltice de manusear um torrador bola de café passaria despercebida pelas normas imperativas do condomínio.
 
Se eu fechasse os olhos poderia sentir o aroma tão perto. A questão é que não havia nebulosidade alguma, antes fosse aquele desatino real. O cheiro que senti não era o prenúncio da torrefação de café, tampouco o anúncio do pó recentemente moído recebendo a água fervente em um coador de pano. Provavelmente era apenas a minha mente acessando remotas lembranças, exibindo na tela mental um filme que há tempos não vejo mais.
 
Lembro-me dos dias de infância, do tamborete no qual eu me sentava na cozinha da casa de minha avó, de ver a água aquecendo no fogão e depois sentir o cheiro de café moído e coado na hora, perfumando o ambiente. Recordo de vê-la preparando a porção, cantarolando músicas antigas que animaram a minha infância, de observa-la com os olhos fechados recitando os versos: “Ah! Chalana sem querer/ Tu aumentas minha dor/ Nessas águas tão serenas/ Vai levando meu amor...”.
 
Talvez a saudade não seja despertada apenas por diários e álbuns fotográficos compondo uma breve arqueologia pessoal. O sentimento também brota das lembranças latentes por detrás de uma infinidade de fragmentos, segundos celebrizados nos quais fomos felizes e a mente não nos deixa esquecer, como a imagem daquele café sendo cuidadosamente preparado no fim de uma tarde, ou ainda sentir um perfume e a presença de pessoas queridas que hoje já não encontro mais.
 
Decerto, a saudade não é muito afável às tessituras do tempo, ao desencadear de suas datas e ao avanço do calendário. Inusitadas, essas recordações avassaladoras gostam de eternizar nossas histórias e nos faz crer: é tudo presente, está tudo aí em seus pensamentos esperando um estalo dos seus sentidos para você lembrar e se transportar para os dias felizes que você viveu.
 
São seletivas recordações, de fato. Elas têm o hábito de revitalizar aquilo que mais amamos e de ressignificar cada episódio vivido com traços poéticos. E nos fazem sentir saudosos dos tempos de infância e até mesmo das incontáveis travessuras que hoje nos parecem risíveis anedotas. Quem sabe, recordar daquele amigo de infância, que morávamos na mesma rua e jurávamos sermos iguais por torcemos pelo mesmo time de futebol, até cada um seguir o seu caminho diverso. Fazem-nos recordar ao folhear o diário do primeiro amor platônico, nunca concretizado, quando mal nos conhecíamos na adolescência e repetíamos juras de amor. Lembranças daquelas roupas que usávamos e dos cortes de cabelo inusitados, que marcaram dias de juventude que não se repetem.
 
Doces lembranças que transformaram pessoas passíveis de erros em estimados personagens heroicos da nossa história particular. São dias memoráveis revistados em momentos improváveis, como no instante que um aroma de café tomou conta da casa sem pedir licença. Mais do que saudades, também somos gratos pelos dias felizes que vivemos. Somos bons contadores.

Fonte: Diário de Uberlândia

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